Lolita e a corrupção de uma criança de 13 anos

Humbert Humbert, acadêmico, começa a história deixando claro que está preso, e que seu diário é uma forma de explicar o que exatamente aconteceu. E, logo no início, esclarece que o fato de seu primeiro amor, Annabel, ter morrido de forma prematura sem poderem consumar seu amor, lhe causou uma forte preferência por meninas de 9 a 14 anos. Assim, a primeira parte do livro se resume a uma apresentação de sua vida antes de conhecer Dolores, mais conhecida como Lolita.

H. H. teve um casamento frustrante na Europa, e após receber a proposta de um amigo, se mudou para os Estados Unidos. O programado era ser inquilino na casa desse amigo (que tinha uma filha que poderia ser alvo de sua atenção), mas incidentes fizeram com que ele alugasse o quarto na casa de Charlotte Haze. A decisão de ficar lá é tomada quando ele conhece Dolores no quintal da casa, que ele define como uma bela ninfeta de 12 anos. Aparentemente sua sorte mudou, e nessa segunda parte do livro podemos acompanhar H. H. tentando se aproveitar de todos os momentos para acariciar Dolores, a ponto de testar soníferos fortíssimos em sua mãe para que possa desfrutar da menina enquanto sedada.

lolita

Cara, ela é só uma criança!

H. H. é um narrador não confiável. O que exatamente isso significa? Tudo o que ele fala é para se redimir de possíveis erros. As cenas mais impactantes são envoltas em poesia, os piores pensamentos são todos extensamente justificados. A ausência de cenas de sexo, explicada pelo narrador como a parte menos importante dessa “história de amor”, também é artifício para que o leitor ignore a principal parte. E por conta disso a leitura desse livro sem muita atenção, sem um ar de malícia, pode fazer com que o leitor deixe muita coisa passar. Se focar somente no ponto de vista de Humbert é a pior armadilha que esse livro pode oferecer. Mas, sinceramente, quando você fica atento aos detalhes, fica claro que Lolita não é um livro de romance.

A leitura desse livro foi agoniante. Um homem adulto que vê malícia em todos os movimentos de uma criança de 12 anos. Um homem adulto que tem a absoluta certeza de que ninfetas são mulheres com corpo de criança e um poder demoníaco de sedução, que estão na terra para escarnar de homens nobres e fracos como ele. E o fato de H.H. tentar explicar cada atitude como uma prova de amor faz com que doa ainda mais. Porque é somente nos detalhes que percebemos o quanto Dolores se sente mal, como ela não aguenta a situação e de todas as coisas que ela sente falta. Como ela tenta ser uma criança normal, e como ele a trata como um objeto, precisando ter o peso certo, a educação certa, as amigas certas, e jamais, jamais amigos homens.

“Quando minha querida mãe nos achar, ela vai se divorciar de você e me estrangular.”

Não tenho conhecimento de psicologia para analisar profundamente as atitudes do narrador. Mas passei a leitura toda chocada. E mesmo assim, este narrador é tão malicioso, que o leitor fica preso na leitura. É um misto de repulsa e curiosidade. Você não quer mais saber o que está passando na cabeça de H.H, mas ao mesmo tempo você sabe que ele está preso, e isso te dá aquele impulso para acompanhar essa história até o final. E as ferramentas que o narrador usa deixam o livro muito aberto a interpretação, assim sua experiência influencia na sua leitura, de forma que você pode ler e chegar a uma conclusão totalmente diferente da minha…

Indico, para quem tem curiosidade, para quem quer aprender artifícios de escrita, para quem tem o coração forte. Só não indico para pessoas mais novas, porque eu realmente não gostaria que alguém crescesse achando que é assim que se demonstra amor. Confesso.

FICHA TÉCNICA
Título: Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Ano: 1974
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  • Fê Falleiro

    Vou pegar pra ler e poder opinar melhor, mas confesso que nunca vi o filme e nem beleza americana, tudo com essa temática me dá nojo =P

    • LigiaColares

      Cara, leia. Para quem quer aprender a escrever, estudar os artifícios e as artimanhas de escrita desse livro é ótimo! E depois me chama inbox praquela conversa ahha

  • Juliana Cirqueira

    Adorei a resenha! A sua opinião ficou muito clara e bem colocada. Gosto demais dessa história pois retrata um tema muito polêmico e que levando muitas opiniões diversas e discussões a respeito de pedofilia, de obsessão e “amor”, podemos até chamar de amor platônico ou doentio, no caso do H. H. O livro também deixa muita gente em cima do muro e se questionando a respeito da maturidade (ou falta dela) e do comportamento de meninas com essa faixa etária na década de 50 e hoje em dia, por exemplo. Novamente, parabéns pela resenha e pela disposição de encarar esse livro! Bjos.

    • LigiaColares

      Obrigada pelo comentário e pelo elogio, Juu! Ai, eu tentei escrever uma primeira resenha mais neutra, mas nao consegui. Apesar de saber que a interpretação é muito livre, achei justo deixar claro a minha opinião. e claro, que o leitor pode ter outra haha. E claro, obrigadapela indicação! Haha!